Um dia desse peguei-me olhando ao espelho.
Devo ter ficado assim, inerte, durante algumas horas, não lembro bem.
Pus-me a observar meus detalhes, meu cabelo, meu rosto e o tudo o que poderia ver naquele reflexo.
De repente, foi como se minha mente começasse a viajar, e vi-me criança outra vez. Comecei a comparar meu corpo agora adulto, ao daquela criança que via. Quanta coisa mudou! Quanto de mim foi embora com o passar do tempo. Veio-me um sensação de saudade e uma certa inveja. Aquela criança não tinha medo do mundo. Preocupava-se em estar sempre arrumada para ver o papai chegar do serviço e levá-la pra correr nos gramados do Olaria, quando ainda existia tais.
Aquela menina gostava de balas de maçã verde, gostava dos desenhos do Pernalonga e de pegar insetos na mão. Não tinha maldade nem preocupações. Seu mundo era limitado, é verdade. Mas fisicamente apenas. Em sua mente, a menina ia a Lua, ia até a China quando quisesse, andava em cima do arco-íris e em toda época de natal, aventurava-se a procurar a casa do Papai Noel. Sim, porque ele existia.
Ela era um livro completo, apesar da pouca idade.
Fechei os olhos em um pequeno instante. Apertei-os bem e abri em seguida. Continuava lá meu reflexo, agora porém, adulto.
Concentrei em mim mesmo, deixando aquele sentimento nostálgico de lado, e procurei buscar ver algo além do visível. O que via era uma menina-mulher, mãe e filha desempenhando papéis que, talvez não eram para ser meus.
Quantas perguntas e dúvidas! Quanto de mim eu teria que perguntar para o mundo? Quantas respostas eu teria?
Quem eu seria na realidade? Na realidade física e abstrata, quem seria essa menina-mulher, personagem real que via outrora em minha frente? Quanto havia de mim no mundo, e quanto havia do mundo em mim? Se tirasse de mim todas as influências sofridas até hoje, todos os traumas, tudo o que aprendi, tudo o que busquei, sofri, tudo o que vi, tudo que de alguma forma me afetou, quem seria o eu na essência mais pura possível?
Quem seria esse reflexo sem o teatro do dia-a-dia, sem as influências do passado, e sem a obrigação de seguir cuidadosamente a fronteira da causa e efeito?
Inerte, frente ao espelho, pergunto-me qual seria a recompensa ao fim dessa coleção de momentos e variações a qual chamamos vida. Mas não obtenho respostas.
Fabyola Gleyce
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Fabyola você é fenomenal. Adoro seus textos.
ResponderExcluirQueria ter o talento que tem para colocar em palavras o que se passa disperso em minhas idéias rs..
obrigado.
Meu querido, muito obrigada pelas palavras, mas te digo que sou uma farsa. Eu apenas copio o meu estado de espirito e colo no papel...de vez enquando sai algo que presta rs
ResponderExcluirVc tb escreve bem, já estive em seu blog algumas vezes...
Fabiola querida que bom que voltou a escrever novamente. Senti, e provavelmente todos os que acompanham seu blog, tb sentiram sua falta. Gostei muito desse ultimo ai, como o amigo de cima disse, "fenomenal". As vezes sinto uma certa melancolia em suas palavras, e como vc disse acima que é apenas o seu estado de espirito, acabo me preocupando.
ResponderExcluirTenho pra mim que o verdadeiro poeta é aquele que transforma suas angústias e frustrações em arte, e isso você consegue fazer bem. Pela sua forma de escrever, mesmo não te conhecendo pesoalmente (AINDA) já tenho pra mim um perfil traçado seu. Não duvide do quanto você é encantadora, e do quanto suas palavras vem de encontro ao que nós, humildes escritores, tentamos sim, retratar.
Fica aqui um forte abraço de um grande admirador seu.
Interessante, simples e objetivo. Assim descrevo essa flor que dia após dia faz questão de se desabrochar ainda mais.
ResponderExcluirGosto de seus textos, espero que volte a postar mais textos frequentemente.
Adoro você linda