quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Espere mais um dia

A vida nos prega surpresas, disso todos nós sabemos.
E se surpresa viesse sempre com uma conotação positiva, estaríamos tranqüilos quando o assunto é o futuro.
As diversas situações pelas quais passamos diariamente, não raro nos fazem sentir no fundo do poço. São tantas mentiras, decepções, incompreensões e perdas que se formos parar para analisar a fundo, chegamos a conclusão que nem vale a pena viver.
Mas vale.
A vida é um coquetel de fatos, nem sempre bons, mas uma mistura de momentos.
Se formos nos deixar abater pelos fatos ruins, nem saímos do quarto. Acredite: já tive medo de levantar da minha cama e ver a luz do sol. Muito medo.
Sempre temos a esperança de que as coisas irão melhorar algum dia. Vivemos numa expectativa diária de mudança. Mudanças melhores, e dias melhores.
Diversas vezes desejei não ter nascido. E diversas vezes desejei dormir profundamente. Morrer não. Apenas dormir, por alguns meses ou anos talvez. Acredito que uma das piores sensações do ser humano, é o sentimento de vazio. Você busca, luta, constrói e continua vazio. Seu sorriso é falso. Mas você tem que sorrir. A vida é injusta as vezes.
Não raro, a vontade de sumir, de virar uma gotícula e evaporar acaba nos perseguindo. Já fiz várias coisas contra mim das quais me arrependi. Por isso digo: espere mais um dia.
Espere mais um dia apenas, antes de tomar alguma decisão irreversível ou atitude ruim contra você mesmo.
Não beba, não se drogue. não faça nada disso contra você, se o objetivo for disfarçar alguma dor interior. Não melhora. Sei que precisamos de um refugio. De um abrigo. As vezes apenas precisamos de um abraço. De uma palavra. E as vezes não temos ninguém nem nada para nos dar essa coisa simples que se chama afeto humano.
Achei meu refugio na escrita. Depois de várias tentativas totalmente falíveis, de suprir algo, achei meu verdadeiro refugio.
A vida não é fácil. E pra mim também não tem sido nem um pouco fácil ou compreensiva. A impressão que tenho de tempos em tempos é a de que estou sedo obrigada a viver a força. As vezes eu simplesmente não quero viver o dia de hoje.
Por isso, sempre espero o outro dia. Por que o tempo não possui memória suficiente para repetir os fatos ruins, pelos quais passamos. Dá vontade de gritar, de chorar, de cavar um buraco e enfiar a cabeça. Ou apenas tomar um remédio, colocar um pano preto nos olhos e dormir... ah dormir...dormir com a sensação de que vai ser melhor quando acordar. Isso conforta.
Nós humanos, pacotes frágeis de sentimentos, precisamos da esperança das coisas melhores. E acredite –de novo- elas vêm! Sim, as coisas boas existem!
Quando estamos passando por uma crise, parece que ficamos cegos. Cegos e completamente negativos. Acabamos assumindo o papel de vitima, e nos esquecemos de que os papéis invertem, diferente do teatro ou cinema.
As vezes precisamos apenas de um Martini barato para nos sentirmos melhor. Mas nem sempre é assim. Precisamos de carinho, de afeto e de amor. Ninguém vive sozinho. E a sensação de solidão pra mim é a pior que existe. É ruim olhar pro lado e ver que as nossas únicas relações são profissionais. Você olha e vê que não pode contar com seus pais. Eles não me entendem. Seus amigos estão longe. E você não tem fé o suficiente pra acreditar que existe algo superior. Como disse, a vontade de desaparecer é grande.
Mas espere... espere mais um pouco, porque tudo passa. A nossa própria vida passa, como um rio. E nem sempre corre em linha reta.
Costumo dizer que a vida é um livro, e nossos dias são capítulos inéditos escritos e editados em tempo real. A vida é um rio. O rio contorna pedras, e outros obstáculos. E sempre desemboca no mar. Não sei qual é o mar da vida, mas sei que tem um fim. E não falo na morte propriamente dita.
Viver é um dom. É um dom que muitos jovens de hoje desperdiçam. Não no sentido de beber, se drogar e etc. Mas falo dos muitos jovens que deixaram o mundo cedo demais. Por vontade própria. Jovens estes que não viram verdades em palavras como esta que escrevo agora, lidas em outros meios.
Em uma de minhas pesquisas, descobri que o número de jovens que partem aparentemente sem explicação, ou no popular “de uma hora para o outra” é maior do que pensamos.
Tem jovens que simplesmente optam por viver em contagem regressiva. Tem outros que avisam de todas as formas possíveis sobre o seu desejo de partir. E tem os que simplesmente partem, sem dizer adeus ao mundo. O desequilíbrio psicológico é o responsável por isso. Esse fator aliado a incompreensão dos pais, amigos e familiares leva ao suicídio. E ao meu ver, deveria ser uma expressão –suicídio juvenil. Estou escrevendo isso, não como uma autobiografia. Mas de tanto observar alguns casos muito próximos a mim.
Conheci uma pessoa que se machucava. Feria a si própria por fora, e quando perguntei o por quê daquilo, ela me respondeu com palavras simples “Alivia a dor por dentro...não quero morrer, apenas ‘distraí-la’ um pouco”.
Conheci outra pessoa que escrevia cartas. Cartas dando adeus a todos. Um pro amigo, outra pro professor, outra pros pais. Ele falou que fazia aquilo pra desabafar. Não mostrava pra ninguém. Guardava pra si próprio.
A terceira, se expressava verbalmente e aos gritos “EU QUERO MORRER” e ninguém a ouvia. Até o dia em que se atirou do sétimo andar.
Onde estamos nós? Onde estamos nós com um dos sentidos mais básicos e primários que é a audição? Perdemos a capacidade de ouvir o próximo. Tudo isso pra não nos contaminar. Quer saber? Somos a geração mais egoísta que já existiu ou que irá existir algum dia. Deixamos nosso semelhante partir, apesar de ver todos os avisos.
Estou revoltada. Não exijo que sejamos deuses perfeitos, mas sejamos humanos! Não é isso que somos? Por favor! Não é possível que a nossa arquitetura interna seja formada apenas de recursos físicos. Já conversei com vários jovens durante um tempo, e eles viam em mim um tipo de refugio. Eu não resolvia seus problemas, mas os escutava. E acredito que pelo menos duas vidas eu consegui salvar. Não como super-homem –ou mulher, mas apenas oferecendo meus ouvidos.
Estou num projeto com um amigo escritor. E além de escritor, psicólogo. Já tem um tempo que estamos nesse ramo de pesquisa, e uma das nossas conclusões primárias, é a de que a nossa geração é a geração mais estressada que existe. Perdemos a capacidade de sonhar. Em lugar disso, trabalhamos, estudamos, damos o melhor de nós mesmos, apenas para satisfazer desejos sociais. Não somos felizes. Ou então não sabemos o que é ser feliz. É muita pressão pra que nos preocupemos com isso.
Tais jovens, que sofrem de depressão descrevem uma sensação em comum. Nada mais faz sentido. Não faz sentido viver, não faz sentido estudar, trabalhar, comer um fast-food que gostava tanto...acabou. Não gostam disso mais. Querem apenas que o tempo passe. E a sensação só piora a cada volta do relógio. E o pior? Ninguém entende. Cobram da pessoa que ela melhora. Cobra que ela saia daquele ciclo. Por ela mesma. E quer saber de um segredo? Isso não ajuda! Uma pessoa depressiva não agüenta se sentir cobrada, ainda mais quando é algo que ela própria não tem controle, que são seus sentimentos. As vezes ela só quer falar. Ou chorar.
Por isso digo, espere mais um dia. As coisas melhoram. E como disse acima, não existe uma memória temporal, e cada dia é um capitulo inédito.
Sei que não é fácil. A nossa pior luta é aquela que travamos contra nós mesmo. E nosso maior desafio é enfrentar mais um dia, sem ter certeza do que irá acontecer. Combater certos sentimentos é pior que lutar com os olhos vendados em um campo de batalha. Porque é algo que depende unicamente de nós. E as vezes, a gente simplesmente não tem forças.
Acredite: as coisas melhoram. E eu, humilde escriba, tenho por teoria pessoal que cada um tem uma missão aqui na terra, e não devemos partir até cumpri-la.
E me permito dar um conselho: quando qualquer um de nós, mortais, estivermos lá no fundo do poço, que paremos de cavar. Paremos de buscar sempre o pior e olhemos pra cima. Dá pra enxergar as estrelas, por mais profundo que o abismo se apresente. E de verdade.
Isso nos dá esperança. Talvez não de viver para sempre, mas de encarar mais um dia, e assiná-lo no fim.

Fabyola Gleyce

3 comentários:

  1. Incrível, como deve ser a autora desses textos.

    Abraços querida.

    ResponderExcluir
  2. Parabéns Fabyola, uma qualidade impar.

    A melhor parte de ler textos fantásticos é poder ler parte de sua biografia pelas palavras dos outros rs..

    Quantas vezes não perdemos as esperanças e queremos apenas dormir, saímos de casa olhamos para as pessoas nas ruas e todas parecem mais felizes e satisfeitas do que estamos. Só esquecemos que não estamos vendo o interior delas..

    em uma parte do seu texto lembrei dessa frase
    "Enquanto tiveres um desejo, terás uma razão para viver. A satisfação é a morte." de George Bernard Shaw

    um esperança e coragem é o que precisamos para seguir em frente no dia-a-dia.

    beijos e obrigado

    ResponderExcluir
  3. ô meu kerido! me sinto honrada por vc ter gostado do meu texto!
    eu escrevo pra desabafar tb, é uma terapia na verdade...esotu passando por um momento assim, mas sei q vai passar logo!
    qdo a situação é ruim, parece q nao passa nunk neh!

    abração

    ResponderExcluir