terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dos desajustes


Acordei hoje cedo e vi no espelho um outro sujeito. Não me incomodei. Depois fui trabalhar, e lá, sentado frente ao micro, digitando coisas, ouvindo o barulho tec tec das teclas do micro, e o tic tac do relógio, além das ameaças de demissão sumária, fico com impressão de que cedo cedo vou chegar para trabalhar, estender o dedo indicador em direção ao liga e desliga do micro e ver que já tem alguém sentado na minha cadeira, e o que é pior, porta retrato ao lado da caixinha de som com uma foto em que eu não apareço, lembretes em post-it amarelo que não com a minha letra, canetas multicoloridas substituindo minhas Bics fiéis no porta caneta. Depois, quando vir que o sujeito já está mesmo no meu lugar, empoçado, vem o meu chefe com o dedo indicador apontando para mim. Ouvirei um justus você está demitido. Aquele sujeito no espelho...
Enfim, qualquer dia desses vou chegar à casa da minha namorada, tocar a campainha e ela abrirá. Vou assentar no sofá dela e retirar da sacolinha plástica da videolocadora o DVD que prometi levar para a nossa diversão. No plástico da sacolinha da videolocadora haverá um anúncio: adaptação que chegará às prateleiras em breve, o homem duplicado, de um certo livro de um certo autor português. Quando ligar o aparelho de DVD, e a namorada se assentar, vou perceber sua mão já acariciada, a boca já beijada, o corpo já abraçado, e o sexo já... Bom, é melhor deixar o sexo dela par lá. O cara do espelho deve ter razão. Por fim, os recados no correio eletrônico vão estar já lidos quando eu os acessar. As mensagens no celular já estarão respondidas, apagadas, os textos já estarão postados, e com mais comentários do que o habitual, enfim, as ligações não atendidas já estarão retornadas quando eu as procurar no meu LG. Depois de um tempo, as revistas já estarão abertas tão logo cheguem à minha caixa de correio. E não será o carteiro não. O cara do espelho é mesmo muito sacana. O lado bom disso tudo? Não haverá problema de ter o número do celular clonado, e nem de ter o carro roubado. Nada é meu. Eu não sou de ninguém. E, quando o momento tão aguardado, enfim, chegar, vou ser arrancado da cama com uma violência indiferente à minha sonolência. E vão me enxotar, sem direito a escovar os dentes.
Agora, próximo à hora do almoço, eu posso decidir: largo esta merda de emprego e vou para casa correndo, e chegando lá vou procurar no espelho do banheiro e arrancar aquele cara de lá, e esfolar a cara de barba por fazer dele nos azulejos que imitam azulejos japoneses do meu banheiro, e deixo o sangue escorrer em todas as possíveis direções, ou deixo estar do jeito que está e vejo acontecer o que o sacana me avisou hoje de manhã, minha vida está sendo tomada de mim. Meu emprego, minha namorada, meu próprio reflexo, tudo. No fundo, no fundo, o cara do espelho até tem razão. Tudo é substituição, eterno desajustar. O emprego sempre ameaça acabar, a destreza das mãos também, a visão, coitada, vai se embaçando cada dia mais, o salário não aumenta, e até diminui, por que as coisas que temos que comprar com o que ganhamos, essas sim, aumentam e muito; a namorada gosta cada vez menos de mim, e... e... e... o cara do espelho tem razão. Deixa ele lá, deixa ele lá.

Edi Valesi Valente (Texto) Foto from web

Um comentário:

  1. Adoro essas escritas do cotidiano cronizadas de forma tão singela.
    A gente tem escritores bons....parabens EV!

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